NAUFRÁGIO NO ANO NOVO

17/08/2026

            A onda mais forte e mais alta nos pega pela popa. O motor de 75 Hps apaga e nossa lancha Leveforte de 16 pés não resiste e afunda em poucos minutos.

Por insistência do Luiz Aldo, eu havia acabado de colocar meu colete de mergulho, que na superfície pode ser inflado e transformado em salva-vidas.

A primeira reação é a de salvar minha sacola, pois dentro havia um bom investimento em material de mergulho como: faca, luvas, touca, cinto de lastro, válvula reguladora, além de óculos de sol, dinheiro, máquina fotográfica , etc.

Meus parceiros de mergulho fizeram o mesmo e em minutos carregavam além de sacolas, cilindros de ar, rádio e o que mais passava pela frente.

Na verdade, depois que a lancha afundou, todos tiveram a mesma sensação: em cinco minutos passa um barco e nos recolhe.

A corrente nos puxa para o alto mar...

Faz 15 minutos que estamos ao redor da proa, única parte da lancha que ainda não submergiu.

“Vamos nadar em direção ao Calhau”.

É o Luiz Augusto quem orienta. Piloto da lancha e o mais calmo entre nós, ele aponta a formação rochosa conhecida como “Calhau de São Pedro”, localizada entre a reserva ecológica Ilha do Arvoredo e o Continente.

A corrente nos puxa para o alto mar. Estamos todos cansados do mergulho feito há 4 horas atrás, e o peso das sacolas e objetos que carregamos passa a aumentar a cada minuto.

Começamos a nadar...

A tempestade passa e aos poucos tomamos consciência do que realmente esta acontecendo e ainda da enorme distância que nos separa do único ponto que conseguimos enxergar do local onde nos encontramos.

Em segundos um grito. “um barco, ali no sul.” É o Valtor quem avisa, e logo estamos todos gritando feito loucos e agitando os salva-vidas amarelos que retiramos da lancha antes de afundar completamente.

O barco passa direto a uns 200 metros sob a chuva fina e o pânico se instala.

Começamos a nadar.

É 1o. do ano de 1993, dia de festa...

O mergulho do dia 2 é tradicional, pois já o fazemos há 6 anos consecutivos.

Sempre no dia 26 de dezembro pegamos nossas famílias e saímos de Gravataí em direção ao Camping Atalaia, localizado na Praia do Mariscal, local ermo, escondido entre as praias de Bombinhas e Zimbros, 80 Kms depois de Florianópolis.

Na passagem deste ano contamos 52 pessoas entre homens, mulheres e crianças que faziam parte do nosso grupo e que superlotavam uma área do camping. Era administrado por Mr. Chip, um americano ermitão que há 15 anos descobriu e comprou aquele pedaço de paraíso.

É 1o. do ano, dia de festa. Final de tarde e nos reunimos para aprontar o equipamento, pois pretendemos sair bem cedo no dia seguinte.

Com exceção do Valtor, todos trabalhamos na mesma Empresa(na data dos acontecimentos): Cláudio Roberto Nicolini, Diretor Comercial, Luiz Augusto Werlang, Diretor Industrial, eu, Gerente Comercial, Luiz Aldo Winter, Gerente Industrial e o Valtor, nosso convidado, Diretor de uma Empresa que é nossa fornecedora.

As 6 horas da manhã nossa lancha “BIG DOG” zarpa da baía de Zimbros em direção ao nosso ponto de mergulho, uma ilha chamada “Deserta”, localizada a 30 minutos de lancha da Reserva Ecológica do Arvoredo. Previsão de chegada às 8 horas.

O mergulho ruim parece um prenúncio...

Conforme o previsto chegamos às 8 horas da manhã.

Contornamos toda a ilha até chegar ao lado norte, posição que nos pareceu mais favorável para descer a âncora.

Primeiro mergulham Nicolini e Luiz Augusto. Depois mergulhamos eu, Luiz Aldo e Valtor e é a vez deles tomarem conta da lancha.

O mar está grosso e a 15 metros de profundidade encontramos correntes marítimas muito fortes, o que faz com que antecipemos nossa subida.

O mergulho ruim parece um prenúncio do que está por vir.

Quando emergimos estamos muito longe da lancha. Fazemos o sinal código dos mergulhadores e a lancha vem nos recolher em seguida.

O Luiz Aldo e o Nicolini resolvem fazer apnéia junto as pedras antes de ir embora.

O mar continua grosso e a lancha balança muito. Começo a enjoar ou marear, conforme a língua dos navegadores.

Para tentar me restabelecer, finjo que quero ser fotografado e nado até as pedras.

Na lancha, a 50 metros da ilha, Luiz Augusto pega minha máquina na sacola e fotografa meu sorriso amarelo.

Resolvemos nos deslocar até a Ilha do Arvoredo para lancharmos antes de empreendermos nosso retorno ao Continente.

Espero uma onda maior encobrir a pedra onde me encontro e sou puxado para o mar. Nado até a embarcação e depois de 30 minutos chegamos a Ilha .

É uma hora da tarde. Como rapidamente e em seguida faço um mergulho de apnéia perto da lancha. Neste tipo de mergulho usa-se apenas os pés de pato, máscara e snorkel, que é aquele caninho que fica acima da superfície e nos permite respirar sem tirar a cabeça pra fora d`água.

Ouço um barulho forte e levanto a cabeça. Me pedem pra subir na lancha e avisam que uma tempestade desloca-se em nossa direção, vinda do sul.

O mar vira um inferno...

Resolvemos zarpar com o motor a pleno. Nosso objetivo é alcançar o Continente em uma hora.

A tempestade nos alcança bem antes, no meio do percurso.

Primeiro ondas de três metros na proa. Nosso piloto joga a lancha contra elas. Depois ondas laterais. Em seguida chuva de granizo batendo em nossas cabeças. Frio. O mar vira um inferno.

Logo ondas de cinco metros quebram por toda a parte e finalmente uma muito violenta passa por cima do motor.

Como que saída de um sonho ouço distante a voz do Luiz Aldo gritando: “rápido Julio, nós vamos afundar.”

Minutos antes do início da tempestade passou bem perto de nós um barco grande. Em meio a chuva víamos duas lâmpadas acesas balançando ao sabor do vento. Podíamos ter encostado e pedido ajuda.

O orgulho e o sangue Gaúcho falaram mais alto e resolvemos atravessar o dilúvio sem ajuda.

Erramos.

Agora estávamos ali, perdidos em alto mar, sem avistar o Continente.

Julio, tu precisas nadar mais rápido...

Já são quase 3 horas da tarde quando começamos nadar em direção ao Calhau de São Pedro.

Luiz Augusto mergulha em baixo do que restou da lancha e volta trazendo uma sacola com nossos pés de pato. Distribui um par para cada um de nós.

Aos poucos, devido ao peso de minha sacola, vou ficando para trás.

Vejo que Nicolini, o último a abandonar o barco se distancia rapidamente e percebo que forma-se lentamente uma espécie de fila indiana aquática.

Primeiro o Nicolini, que nada com duas pequenas bóias em cada braço. Depois o Valtor, que esvazia sua sacola e recolhe o que pode, colocando por sob a roupa de neopreme. Em seguida Luiz Aldo, carregando numa das mãos uma embalagem hermética contendo nosso rádio, que foi salvo na última hora e na outra, uma garrafa d`agua saída não sei de onde. Em quarto na fila, o Luiz Augusto, que nada com seu colete inflado mais a dificuldade extra de ter que carregar junto dois cilindros pendurados no colete, pois não houve tempo de solta-los. Por último eu, ainda agarrado na sacola e no cilindro de mergulho.

Depois de uma hora nadando de costas ouço o grito do Luiz Aldo: “ Kuny(apelido do Luiz Augusto), volta pra buscar o Julio”.

Luiz Augusto retorna 30 metros e pede que eu solte o cilindro. Prá meu espanto, eu não percebia mais que carregava algo em meus braços, apenas sentia um enorme peso.

Solto o cilindro, mas não sei porque, recuso-me a soltar a sacola. Talvez porque ela era naquele momento meu único elo entre o sonho da terra firme e a dura realidade de estar a deriva em alto mar.

Ele me convence a entrega-la e diz que vai carrega-la pra eu descansar.

Dá duas ou três braçadas e solta a sacola para o fundo do mar.

“Julio, tu precisas nadar mais rápido, senão não chegamos antes do anoitecer”.

Enfim terra firme...

Depois de nadar duas horas e meia, meus movimentos estavam completamente desordenados.

Luiz Augusto nadava um pouco e voltava pra me incentivar. “Vamos Julio, agora falta pouco”.

Como falta pouco, diabos? Para mim a ilhota continuava tão longe quanto do início do percurso. Minha impressão era de que estava cada vez mais longe.

Era 2 de janeiro e minha mulher Rosângela, estava no nono mês de gravidez de nosso segundo filho, Felipe. Ele acabou nascendo no mesmo dia de minha filha Karine, 26 de janeiro, ou seja, 24 dias depois no naufrágio.

Com três horas de percurso eu não pensava mais conseguir. Estava totalmente exausto e a cada pequena parada as correntes me faziam voltar vários metros.

Chamei o Kuny para perto de mim e ensaiei um testamento verbal. Fui repreendido imediatamente. “Pó cara, tua mulher e tua filha estão lá te esperando. Tu não podes desaponta-las. E ainda tem o bebê que está pra nascer. Nada Julio, nada”.

Aquilo me sacudiu e renovou minhas forças, fazendo-me voltar a nadar frenética e imediatamente.

Parei de ter maus pensamentos e logo em seguida avistei alguma coisa movendo-se por sobre as pedras que compunham a pequena ilha.

Avisei Luiz Augusto, que me disse que era um dos nossos, provavelmente o Nicolini ou o Valtor, pois nós não os avistávamos há um bom tempo.

Forçamos as braçadas e trinta minutos depois, avistamos uma segunda pessoa correndo de um lado para outro por sobre as pedras. Mais tarde ficamos sabendo tratar-se do Nicolini e do Valtor, orientando a subida do Luiz Aldo.

Após longas quatro horas de braçadas ininterruptas a ilhota cresceu enormemente a nossa frente. Contornamos até o local indicado por nossos companheiros, a fim de subirmos imediatamente até as pedras.

Tínhamos que ser rápidos, pois estava anoitecendo e ainda corríamos o risco de passarmos ao largo da ilha e sermos levados pela correnteza.

A meu pedido Luiz Augusto subiu primeiro. Teve enorme dificuldade, pois carregava 2 cilindros de ar nas costas. Além disto as “cracas”, restos de mariscos colados as pedras e transformados em navalhas, iam rasgando suas mãos a cada contato.

Já completamente sem forças esperei pacientemente minha vez.

Meus companheiros de infortúnio fizeram uma espécie de corda, amarrando as tiras dos coletes umas nas outras.

Apontaram o local onde eu deveria me deixar arremessar pelas ondas.

Esperei a onda maior e nadei até as pedras. Tentei levantar-me. Os pés de pato fora d`agua atrapalhavam.

O Luiz Aldo me aguardava quase na água pra me alcançar a “corda”. Fomos os dois arremessados contra as pedras.

Nossos corpos foram protegidos pelas roupas de neopreme, mas as mãos, assim como as dos demais náufragos, ficaram completamente ensangüentadas.

Subimos até a pedra mais alta e abraçamo-nos emocionados.

Estávamos todos salvos. Enfim terra firme.

O cozinheiro de um navio nos avistou...

Tentamos usar o rádio:” May day, may day, lancha Big Dog chamando, estamos no Calhau de São Pedro.”

Foi impossível utilizar o rádio sem a antena, que ficou presa na lancha.

Já passava das 8 horas quando, no cair da noite, o cozinheiro de um navio que passava muito longe, alimentava-se no convés. Viu movimentos estranhos sobre aquelas pedras e chamou o Capitão. Este, com o auxílio de um binóculo, nos identificou e imediatamente aproou em nossa direção.

Mesmo tendo que nos lançar novamente ao mar, nossa alegria era enorme em tomar contato com o mundo novamente.

Paulo Werlang(irmão do Luiz Augusto), outro Diretor da Empresa foi o primeiro a nos ouvir chamar pelo rádio do navio, e com o auxílio de uma baleeira, foi ao nosso encontro na entrada da baía de Zimbros.

Aportamos na praia exatamente a meia-noite, as luzes dos faróis dos automóveis estacionados na areia e os gritos e choro dos amigos e familiares nos trouxeram de volta à vida.

Ainda emocionados iniciamos uma nova festa, agora a “festa do segundo dia do ano”.

Todos nós continuamos a mergulhar!

Eu e o Luiz Augusto inclusive, mergulhamos há 42 metros de profundidade em novembro do mesmo ano, nas águas mornas e calmas do Caribe.

Voltamos várias vezes as Ilhas do Arvoredo e Deserta , e passamos bem perto do Calhau de São Pedro depois do naufrágio.

Não temos medo, apenas respeito.

Desde aquele dia sempre que entro no mar, lembro de um trecho de um dos livros do navegador solitário Amyr Klink: “ O navegador sábio é aquele que sabe que nunca venceu o Mar. O Mar é que deixou passa-lo.”

Dezembro 1995

Julio Prusch

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